O Jogo de Elle Kennedy

É mais um regresso aconchegante ao universo de Briar. Voltar a esta cidade universitária é quase como voltar a casa, e acompanhar a história de Dean Di Laurentis e Allie Hayes torna a experiência ainda mais envolvente, para quem já se tinha apaixonado por Garrett e companhia. O meu coração continua a pertencer ao Garrett, sem dúvida, mas o charme caótico do Dean conseguiu conquistar um espaço enorme ao lado dele.

Em comparação com o casal do primeiro livro, Dean e Allie trazem uma energia diferente: mais descontrolada, mais explosiva e, ao mesmo tempo, surpreendentemente terna. À primeira vista, Dean é o típico jogador de hóquei popular, confiante até dizer chega, conhecido pelas conquistas e pela incapacidade de levar alguém a sério. Allie, por sua vez, começa a história a tentar recuperar de um relacionamento complicado, ainda a descobrir o que quer para o futuro e a aprender a ouvir a própria voz. O encontro entre estes dois nasce de forma quase acidental, com a promessa de algo casual, mas depressa se transforma em qualquer coisa impossível de encaixar em rótulos simples.

Uma das grandes forças deste livro está na forma como a autora equilibra a atmosfera leve e divertida da vida universitária com temas muito mais pesados. Em O Jogo, Elle Kennedy aborda a doença, a dependência e o luto de forma sensível, sem cair em dramatizações exageradas, mas também sem suavizar demasiado o impacto que estas realidades têm na vida das personagens. Por trás do sorriso fácil e das piadas do Dean, encontramos um jovem que ainda não sabe muito bem como lidar com a dor e com a responsabilidade; por trás da doçura da Allie, descobrimos uma rapariga que precisa de aprender a impor limites e a não aceitar menos do que aquilo que merece.

À medida que a relação entre Dean e Allie se desenvolve, sentimos que a ligação entre eles vai muito além da atração física. A química é altíssima, e as cenas hot — marca registada da autora — são intensas, bem construídas e totalmente coerentes com o percurso dos dois. Não são apenas momentos soltos para apimentar a narrativa: ajudam a mostrar vulnerabilidades, avanços e recuos, e contribuem para o crescimento emocional de ambos. Houve cenas que me ficaram a rondar a cabeça durante horas depois de fechar o livro, tal é a forma como são vividas pelas personagens.

Outro aspeto interessante é o crescimento individual que acompanhamos ao longo da leitura. Dean precisa de enfrentar a própria imagem, perceber que não pode viver eternamente escondido atrás do papel de playboy despreocupado, e aceitar que também merece ser levado a sério — pelos outros e por si mesmo. Allie, por sua vez, torna‑se mais segura, aprende a confiar no seu instinto e a colocar as suas necessidades em primeiro lugar, sem deixar de ser empática e carinhosa. Este percurso de amadurecimento é construído com cuidado, entre erros, conversas difíceis e decisões que não são fáceis para nenhum dos dois.

Apesar de tratar de temas intensos, O Jogo mantém sempre um tom viciante e envolvente. As quase 400 páginas leem‑se num ápice, cheias de diálogos vivos, momentos engraçados, cenas de cortar a respiração e pequenos detalhes do quotidiano em Briar que fazem com que o leitor se sinta cada vez mais ligado a este universo. Há uma sensação constante de regresso a um lugar familiar, com personagens que já conhecemos, mas que continuam a crescer de livro para livro.

Um detalhe delicioso é a forma como a música atravessa a história. Em determinado momento, é feita referência à canção “I Want You to Want Me”, que combina na perfeição com certas fases da relação entre Dean e Allie. No entanto, para mim, estes dois acabam por evocar ainda mais a energia de “I Know You Want Me”: há algo na confiança do Dean, na tensão entre eles e na atração impossível de ignorar que parece encaixar na batida dessa música, como se fosse a banda sonora secreta deste casal.

No conjunto, O Jogo é um romance que aquece o coração, arranca sorrisos, provoca alguns apertos no peito e deixa aquela sensação agridoce de despedida quando chegamos à última página. A escrita de Elle Kennedy continua envolvente, divertida e emocional na medida certa, tornando esta leitura rápida, viciante e, ao mesmo tempo, marcante. Para quem já conhece Briar, é um reencontro delicioso com um novo casal inesquecível; para quem chega agora à série, é uma porta de entrada irresistível para um universo cheio de personagens carismáticas, humor, sensualidade e temas profundos trabalhados com leveza. Gostei imenso desta leitura e fico ansiosa por continuar a acompanhar os próximos capítulos da vida destes estudantes de Briar.

É, também, uma ótima leitura para uma tarde de Natal passada em família, no quentinho, com uma manta e uma bebida quente por perto — perfeita para aquecer ainda mais o coração